set 06 2010

Votan: Um enigmático personagem Maia

Published by Projeto CMAIA at 22:27 under Desmistificação,Maia(s),Português

Esta é parte (a maior parte e/ou mais relevante) do artigo escrito em inglês sobre Votan que está presente na Wikipedia (LINK). Vale destacar que, apesar de a Wikipedia não ser muito confiável para muitos, este artigo está bem documentado e cita diversas fontes, tendo sido um artigo que tem o meu amigo John W. Hoopes, da KU (Universidade de Kansas em Lawrence, Kansas, Estados Unidos), como maior colaborador, tendo escrito praticamente todo o artigo. Ele inclusive teve acesso físico a obras citadas. Esta tradução, feita por mim (Thiago Cavalcanti), não é integral e nem necessariamente literal, mas, por outro lado, não desvirtua as informações.

Votan é um personagem cuja história é obscura.
Ao que consta, sua história foi publicada pela primeira vez já no começo do século 18, pelas mãos do Bispo de Chiapas, Francisco Núñez de la Vega, em Constituciones diocesanas del obispado de Chiappa. O Bispo teria supostamente encontrado um manuscrito que citava Votan. Nesse manuscrito, segundo outro autor, que cita a obra de Nuñes la Vega, este (e consequentemente, o manuscrito) dizia que Votan estava presente numa grande construção, feita por ordem de seu tio a fim de alcançar o céu. Além disso, Votan teria sido encarregado por Deus para dividir as terras do Anahuac, e de fato atualmente Votan é mais conhecido como um herói-civilizador Maia Tzeltal/Tzental endeusado (Os Tzeltal são um grupo étnico que ocupa a região que inclui Teopisca, Chiapas, cerca de 113 km a sudeste de Palenque. Relatou-se que, no fim do século 17, 200 famílias Tzeltal “descendentes de Votan” viviam em Comitlan). Segundo o Bispo, Votan pertencia à linhagem real “Cham” (provavelmente “Chan” ou serpente/cobra) e teria estabelecido um reino chamado “Na Chan” (“Casa da Serpente”).
Naquele tempo, os religiosos associaram Votan às histórias bíblicas da Torre de Babel e de Noé, especulando que ele teria vindo do “Velho Mundo” para o México. Estas especulações foram perpetuadas por subsequentes histórias fantasiosas que os acadêmicos criticaram duramente. Essas especulações incluem a associação de Votan com Palenque, feita pelo padre Ramon de Ordoñez y Aguilar em Probanza de Votan, segundo quem Votan teria sido o fundador de Palenque e viajado quatro vezes para a região do Oriente Médio.
Charles Étienne Brasseur de Bourbourg afirmou (em Histoire des nations civilisées du Mexique et de l’Amérique Centrale) que Votan era um legislador fenício que migrou do Oriente Médio para a região Maia, tendo derrotado um povo chamado Quiname, construído Palenque e instituído um império chamado Xibalba que, segundo Bourbourg, chegou a governar todo o México e parte dos EUA. Porém, os acadêmicos maianistas geralmente não consideram contato algum entre fenícios e a Mesoamérica antiga, e descrevem Xibalba como um lugar mítico.
No campo do Mormonismo, há uma extensa análise da história de Votan que aparece como comentário no trabalho de Antonio del Río by Paul Felix Cabrera em 1822. Críticas da igreja Mórmon afirmaram que o trabalho de Cabrera tinha uma forte influência de Joseph Smith, Jr. e Oliver Cowdery, fundadores da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Smith relatou ter tido uma visão em 1823 que eventualmente o levou à descoberta de placas de ouro que comentavam a jornada às Américas de um grupo de israelitas ancestrais, 960 anos da história de seus descendentes e sua conduta para com o Deus dos Israelitas. Estas placas são a origem do Livro de Mórmon.
Alexander von Humboldt associou (em Vues des Cordillères) Votan ao Odin da mitologia nórdica, pois provavelmente um dos nomes associados a Odin é “Wotan”, e também associou Votan a Buddha, dizendo que “provavelmente Odin e Buddha são a mesma pessoa”.
O capítulo IV em Atlantis: The Antediluvian World (1882), de Ignatius L. Donnelly, intitulado “The God Odin, Woden, or Wotan“, repete a referência de Clavigero no contexto de especulação sobre Atlântida e (seguindo Brasseur de Bourbourg) também sugere que Votan construiu Palenque. Donnelly cita Clavigero dizendo que Votan “conduziu sete famílias desde Valum-Votan até este continente, e atribuiu terras a elas”, o que implica que “Valum-Votan” pode ter sido uma referência a Atlântida. A história de Votan foi mais associada à lenda de Atlântida por Lewis Spence em Atlantis in America (1925), que identifica Votan como “um nome local para Quetzalcoatl” e fornece uma sinopse do relato de Núñez de la Vega. Votan também foi citado na literatura do Neo-Nazismo e supremacia branca que o associa a Quetzalcoatl e Kukulcan e afirma que ele era um barbudo e branco europeu que veio para o México em tempos Pré-Colombianos. Estas interpretações também são consideradas problemáticas pelos acadêmicos Maianistas.
Uma avaliação mais crítica sugere que Votan foi um herói cultural dos Tzeltal cuja história pode ser baseada na de um governante que viveu nas proximidades de Teopisca, Chiapas, durante o período Pós-Clássico. Ele era referido como “Lorde do Tambor Horizontal de Madeira” e “Deus Jaguar da Escuridão” (Ak’bal), e seu nome é um dos nomes dos 20 dias no calendário Tzeltal (equivalente ao Tzolkin). Objetos rituais associados a Votan foram removidos de um santuário e queimados na praça principal de Huehuetlán pelo Bispo Núñez de la Vega em 1691.
Votan é frequentemente descrito como o “coração” dos nativos de Chiapas. Tanto as qualidade do herói cultural quanto do sentimento profundo são expressados na pessoa de Votan Zapata, uma lendária manifestação do espírito de Emiliano Zapata homenageada por membros do Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN). “Guardião e coração do povo é Votan-Zapata que é também guardião do coração do mundo. Ele, o homem, a estrela de cinco pontas que representa a humanidade, ele. Hoje, que nós falamos e ouvimos, ele está feliz, o coração de Votan-Zapata está feliz.”

OBSERVAÇÕES FINAIS:
A ideia de que Palenque chamava-se “Na Chan” ou “Na Chan Kan” parece ter origem nos relatos a respeito de Votan, e isso poderia ser um indício de que realmente Palenque foi fundada por Votan. Entretanto, não há nenhuma fonte confiável (se você tiver alguma, me envie) que diga que o nome original de Palenque era “Na Chan” ou “Na Chan Kan”. Segundo alguns dos principais acadêmicos, o nome original de Palenque é “Lakam Ha” (“Grande Água”), capital da região ou reino conhecida(o) como “Bak” ou “Baak” (“Osso”).. “Na Chan”, segundo fontes da “Nova Era”, seria um Palácio e não um reino ou cidade. Ainda assim, é colocado como um Palácio associado a “Pacal Votan” e a Palenque, algo que eu certamente gostaria de ver embasado. Para completar, ao que parece não há nenhum registro citando Votan em Palenque, e vale destacar que já houveram muitos avanços na decifração dos textos hieroglíficos daquela cidade.


Talvez você se interesse em ler também “Pacal Votan: Perguntas & Respostas“, que trata de um personagem oriundo de crenças da “Nova Era” e que faz uso do nome e do simbolismo de Votan.

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One Response to “Votan: Um enigmático personagem Maia”

  1. [...] calendário dentro da etnia/língua Maia Tzeltal/Tzental. Para saber mais sobre Votan, leia “Votan: Um enigmático personagem Maia“. 3 – Então “Pacal Votan” é um nome de certa forma inventado, que na [...]

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