mar 24 2013

Quando “nosso” calendário suplanta o calendário maia

Por Thiago Cavalcanti

Ontem, pelas redes sociais, me deparei com uma dessas imagens que trazem uma mensagem em texto de uma maneira mais atraente, acompanhado de uma foto ou ilustração. A mensagem, no caso, afirmava que um famoso governante maia, talvez o mais famoso deles, estava “fazendo aniversário” justamente ontem, dia 23 de março no calendário gregoriano, e tal afirmação se embasava num nascimento que teria ocorrido a 23 de março de 603 (há 1410 anos, portanto).

O governante trata-se de Pakal, soberano de Palenque durante a maior parte do século VII, mais conhecido pelos leigos como “Pacal Votan” (clique aqui para ler um esclarecimento a esse respeito). Sua data de nascimento, de acordo com os registros históricos deixados nas inscrições encontradas no mesmo lugar onde viveu, pode ser escrita em nosso alfabeto como 9.8.9.13.0 8 Ajaw 13 Pop, e na verdade é uma data em três calendários diferentes: 9.8.9.13.0, data no calendário conhecido como “conta longa”, equivale a 1.357.100 dias transcorridos desde o marco inicial do referido calendário; 8 Ajaw é a data no calendário ritual de 260 dias, 160º destes dias, se considerarmos como referência o mesmo marco inicial da “conta longa”; e 13 Pop, data no calendário civil/agrário de 365 dias, sendo o 14º destes dias (portanto, 13 dias depois do “ano novo”).

Todo esse registro, que os próprios maias nos deixaram, parece, contudo, ficar em segundo plano diante de afirmações como “23 de março é a data do aniversário de Pakal”. Mais do que isso, podemos dizer que esse registro é negligenciado e ocultado aos olhos do público, de maneira intencional ou inconsciente, talvez partindo-se do pressuposto de que, para o público, supostamente leigo, não interessa saber as datas maias, pois não as entenderia, mas sim suas datas equivalentes no calendário gregoriano. Igual fenômeno todos pudemos observar há pouco mais de 3 meses, quando o dia “21 de dezembro de 2012″ virou sinônimo de “fim do ciclo maia” e foi deturpado como se fora também fim do mundo ou fim do calendário maia, ambas afirmações infundadas. Exemplos de afirmações como “inscrição mencionando o dia de 21 de dezembro de 2012″ podem ser encontrados por quase todas as mídias (clique aqui para ver a reportagem que contém a afirmação citada entre aspas).

Oras, afirmar que uma inscrição maia menciona o dia 21 de dezembro de 2012 não é apenas inapropriado, mas mentiroso. Se os maias não usavam o calendário gregoriano, é simplesmente impossível que uma data deste calendário tenha sido registrada por eles. Ao público em geral, costuma-se oferecer uma leitura mastigada e parcial, e é justamente aqui que o “nosso” calendário (o calendário gregoriano) suplanta o calendário maia: dá-se tudo de “bandeja”, como se tudo estivesse muito explicado e certo, omitindo os detalhes oriundos dos calendários maias propriamente ditos e preferindo oferecer aos leitores, ouvintes e telespectadores nada mais do que as datas do calendário gregoriano.

A razão para que a afirmação de que Pakal faz “aniversário” no dia de 23 de março seja considerada falsa (ou pelo menos equivocada, incompleta ou parcial) é essa: Pakal não seguia o calendário gregoriano. Isto deveria ou poderia bastar, mas é preciso compreender um pouco além o que isso quer dizer: ao se afirmar que o “aniversário” de um maia antigo ocorre numa data do calendário gregoriano, se está também impondo este calendário em detrimento ao calendário que este próprio maia utilizou. Isto é, ao mesmo tempo, eurocentrismo (a imposição de elementos ou interpretações fundadas na cultura europeia) e anacronismo (que consiste em analisar um tempo histórico sob os conceitos de uma época distinta), ou seja, uma afirmação que se equivoca na tentativa de situar-se no espaço e no tempo. Ao dizer que o “aniversário” de um maia antigo é 23 de março, se está na verdade não apenas simplificando, mas também deturpando os registros maias e mentindo para o público. Esta data, se verdadeira, seria secundária e inexpressiva em comparação às datas maias, mas há uma inversão de valores que convém a muitos pesquisadores e jornalistas ocidentais e é exatamente o contrário que acaba ocorrendo.

O problema aumenta de tamanho se trouxermos à cena o famoso (entre os pesquisadores maianistas) “problema da correlação”. Resumindo, o problema é o seguinte: a tal “conta longa” mencionada como parte da data de nascimento de Pakal (justamente o dado mais importante para situá-lo historicamente em relação ao calendário europeu) caiu em desuso e não sobreviveu até os dias de hoje. Fez-se necessária uma espécie de reconstrução daquela conta, releituras e teses (umas mais e outras menos científicas) para tentar dizer que dia seria hoje na “conta longa” e encontrar a maneira certa de correlacionar (daí o nome “correlação”) a “conta longa” com os calendários europeus. Como é de se imaginar, por estas razões não há sequer um consenso a respeito de qual correlação é a correta. Isto significa que nem mesmo se pode afirmar que a data maia de 9.8.9.13.0 8 Ajaw 13 Pop equivale a 23 de março de 603 e, consequentemente, muito menos se poderia afirmar que 23 de março de 2013 seria aniversário de Pakal.

Ainda que se assuma como verdadeira a correlação em que o nascimento de Pakal coincide com 23 de março de 603, isto não bastaria para afirmar que 23 de março de 2013 é seu “aniversário” sem que isto incorresse nos erros do eurocentrismo e do anacronismo, já que tal data não teria nenhuma relevância similar para Pakal por duas simples razões: usando esta correlação, a data de 23 de março de 2013 não coincide com 8 Ajaw e também não coincide com 13 Pop. Seriam estas as duas datas mais próximas ao significado que “aniversário” tem pra nós. O dia 8 Ajaw seria o “aniversário” de Pakal no ciclo de 260 dias e 13 Pop seria o “aniversário” de Pakal no ciclo de 365 dias. Oras, se a data não coincide com nenhuma destas duas datas, então simplesmente não pode ser “aniversário” de Pakal, simples assim.

Resolvi escrever este post para atentar para esse tipo de erro, que realmente me incomoda e certamente é inapropriado no contexto das ciências humanas e sociais, já que devemos entender as outras culturas por elas mesmas, evitando ao máximo a inclusão de elementos de outras culturas. Quando o calendário gregoriano suplanta o calendário maia dessa maneira, na verdade estamos entendendo mais sobre a maneira como o homem ocidental costuma lidar com as coisas do que exatamente entendendo o mundo dos outros. Não basta simplificar, não basta dizer que Pakal nasceu em 23 de março de 603 e que, por isto, todos os dias 23 de março são “aniversários” dele. Isto valeria apenas para quem segue o calendário gregoriano e gostaria que a coisa fosse assim. Isto vale pra nós, que nascemos sob este calendário, mas jamais deveria valer para quem não nasceu sob ele. Se analisarmos o lado maia, isto trata-se de uma falácia das grandes, e nem dizer que isto serve para lembrar Pakal ainda nos dias de hoje ameniza as necessárias críticas: isto é, sim, uma releitura extremamente eurocêntrica e anacrônica, pelas razões aqui expostas. Espero voltar a este tema num momento mais propício para expor esse tipo de equívoco por parte de pesquisadores e jornalistas.

Não sabemos com certeza se Pakal nasceu num dia equivalente a 23 de março, nem se o tal ciclo maia terminou em 21 de dezembro… E mesmo se isto fosse uma certeza, deveríamos operar a partir do calendário maia e não a partir do calendário gregoriano. Isto significa que os outros dias 23 de março e 21 de dezembro não têm necessariamente QUALQUER ligação com os ciclos maias que um dia possam ter coincidido com tais datas do calendário gregoriano. O calendário gregoriano não pode suplantar o calendário maia nestes termos, especialmente quando estudamos a antiguidade. Quando pesquisadores preferem minimizar este problema, eles estão de alguma maneira reproduzindo o velho colonialismo supostamente pelo bem comum, aquele que só serviu para confundir os sistemas calendáricos da antiguidade e adequá-los ao calendário europeu, tornando fixas as relações entre calendário maia e calendário gregoriano para alguns grupos. Se isto vale, em alguns contextos, a partir do período colonial, e graças à imposição do calendário europeu (criando novas tradições calendáricas), para a antiguidade de Pakal não pode valer de forma alguma esse tipo de “analogia” fixa entre datas maias e europeias.

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