jul 25 2013

Introdução ao Sincronário da Paz e seu “Dia Fora do Tempo”: entre política e mística, do “tempo natural” à invasão europeia e o congelamento do Calendário Maia

Por Thiago Cavalcanti

Índice:

0. Nota do autor
1. Introdução ao Sincronário da Paz
2. Do funcionamento do calendário de Argüelles e da importância dos dias “0.0 Hunab Ku” e “Fora do Tempo”
3. Da influência colonial no calendário de Argüelles e o paradoxo do resgate maia galáctico
4. Breve comentário sobre a convergência harmônica
5. Considerações finais: “tempo natural”?

0. Nota do autor

Este texto pretende, à ocasião de mais um dia 25 de julho, “Dia Fora do Tempo” (ou DFT), trazer uma introdução sobre o “Sincronário da Paz” (ou SdP), onde o DFT é celebrado. Este é, antes de mais nada, é um ensaio franco direcionado a todos os leitores que se interessem pelo assunto do Calendário Maia e/ou do “Calendário da Paz” e que pode ser lido no todo ou em partes. Não se pretende um escrito concluído, mas sim pertencente a um âmbito de constante reflexão e diálogo.

1. Introdução ao Sincronário da Paz

Em 1987, veio ao mundo uma obra que marcaria tanto a popularização do “Calendário Maia” quanto do “Fenômeno 2012″. A obra, em forma de livro e escrita pelo estadunidense José Argüelles, chamava-se “O fator maia”, e tratou-se de um esboço daquilo que viria a ser conhecido no Brasil primeiro como “Calendário da Paz” e posteriormente como “Sincronário da Paz”.

Já naquele primeiro livro, contudo, instalou-se uma tentativa para afirmar aquela versão argüelliana, isto é, aquela ordem específica dos dias divulgada pelo livro seria “o calendário maia” (ver início do capítulo 6). Argüelles fora acusado de fazer uso da estrutura de calendários maias para impor sua própria versão e sua ordem dos dias. Mais do que isso, seus principais críticos apontam para uma manipulação da conta de 260 dias, de maneira que os dias rituais de nascimento de Argüelles e sua segunda (e principal) esposa, Lloydine, fossem particularmente interessantes para a sustentação de sua própria teoria e de sua espécie de missão espiritual do novo tempo.

Numa breve analogia, o que se fez na prática seria o mesmo que pegarmos o calendário gregoriano mantendo sua estrutura e sua divisão em meses, contudo afirmando que o dia de hoje, 25 de julho, seria, por exemplo, 20 de março, ao mesmo tempo sustentando que essa nova versão é o “calendário gregoriano”. É claro que haveria contestação.

Seguiu-se, ainda no fim da década de 1980 e começo da década de 1990, reações contrárias às teorias de Argüelles e que coincidiam com uma maior elaboração e desenvolvimento do “Dreamspell” (inicialmente um jogo de tabuleiro), nome original do “Sincronário da Paz” em inglês e que significa “Encantamento do Sonho”, que primeiro ilustrou mais diretamente uma política espiritual e estética de Argüelles em busca de legitimação universal para seu calendário.

Mais do que aprofundar acerca do calendário maia, Argüelles parecia cada vez mais abraçar elementos de outras culturas (alheias ao próprio continente americano) como, por exemplo, as “Runas de Futhark” (Escandinávia) e o “I Ching” (China). Para introduzir essas novas práticas, negligenciou-se toda a riqueza dos calendários que, antes mesmo de serem maias, são mesoamericanos e guardam um universo nativo riquíssimo e completamente preterido em nome da inclusão de elementos kaxlan (palavra que alguns maias de hoje usam para designar os “gringos”, os “de fora da tradição”) e da própria vida e experiência artística do casal Argüelles. Resumindo, Argüelles preferiu abraçar as vertentes místicas e o movimento de nova era ao invés do resgate da cultura maia e mesoamericana em si.

Àquela altura seria sistematizada a inserção do que Argüelles chamou de “Conta das 13 Luas”, a divisão do ano em 13 ciclos de 28 dias cuja existência entre os maias, apesar de encontrar respaldo em pesquisas acadêmicas (que tendem a tratar os 13 ciclos como referente às constelações transitadas pelo Sol e não “luas”), ainda não nos permite “cravar” sua correspondência em relação ao calendário gregoriano. Há aí, portanto, ao mesmo tempo uma nova versão hipotética para este ciclo e que viria a justificar o advento do “Dia Fora do Tempo”, do qual falaremos mais adiante.

Além disso, o discurso do “tempo natural”, amparado pela “frequência 13:20″ (oriundo dos dois ciclos, de 13 e de 20 dias, que compõem o calendário ritual mesoamericano, que totaliza 260 dias) e a necessidade sempre reafirmada, que beira o dogma religioso, de se substituir o paradigma de “tempo é dinheiro” pelo de “tempo é arte”, junto com a problematização da inconstância do calendário gregoriano (com meses que variam de 28 a 31 dias), deram a Argüelles a confiança de um projeto sólido e que poderia se inserir politicamente no mundo.

Baseado numa retórica cujos argumentos principais circundavam esse discurso do “tempo natural” e cuja defesa ao mesmo tempo mostrava-se até certo ponto anticapitalista e (neo?) hippie, pregando uma cultura da paz, amor e arte e introduzindo elementos de culturas europeias e asiáticas, Argüelles levou adiante seu projeto de substituição do calendário gregoriano pelo seu próprio calendário. Apresentou-o em especial a duas das instituições mais influentes do mundo e capazes de legitimar sua ambição: a ONU e o Vaticano.

Tendo seus planos junto a essas instituições frustrados, sem conseguir impor uma mudança na ordem mundial do tempo, seu calendário desviou-se por outras sendas, cada vez mais personalistas, que faziam com que o movimento e o calendário literalmente orbitassem em torno de José Argüelles, que passou a ser cada vez mais reverenciado, a partir da narrativa de diversos ritos de passagem e sonhos pessoais (daí o nome Dreamspell), sob diversos títulos, tais como “encerrador do ciclo” (de 2012) e “doutor da cura planetária”, dentro outros. As críticas New Age ao capitalismo e as práticas e explicações místicas ou religiosas poderiam abundar, uma vez tendo falhado a diplomacia burocrática.

Na contramão de seus interesses, a comunidade científica fazia cada vez mais pressão sobre Argüelles e seu movimento para que deixassem de se propagar como “calendário maia”, demonstrando, de diversas maneiras, como sua teoria era falha, como seus escritos continham erros e, principalmente, como o “ciclo de 2012″ que o próprio defendia não estava sendo respeitado, bem como a ordem dos dias do calendário ritual de 260 dias que, diferente do México (de onde se clama uma suposta origem nativa para a versão de Argüelles), foi mantida na Guatemala – fato que já era difundido entre antropólogos há mais de 50 anos.

Acuado, Argüelles buscou outra saída que lhe pusesse numa posição cômoda e ainda de legitimação e resgate do calendário maia ao que se propunha. Instituiu-se o discurso de que seu calendário era diferente daquele hoje mantido, sendo referente ao resgate “maia galáctico”, isto é, os grandes mestres da antiguidade maia que, supostamente teriam abandonado a “nave Terra”, transcendendo a dimensões superiores.

Isto acaba por relacionar-se, também, nas teorias argüellianas e de maneira previsível, às origens extraterrenas e na mítica do retorno ou reencarnação de mestres espirituais, de propósitos revolucionários através da paz. O leitor pode imaginar por si quem seria o mestre do grande ciclo revolucionário de 2012, e que o discurso “maia galáctico” sobreviveu à própria morte de Argüelles, ainda em 2011, ajudando a manter a confusão que, com certeza, têm sido desfeitas no Brasil graças especialmente a nossas contribuições no âmbito do Projeto CMAIA e que culminaram neste sítio, certeiras numa análise matemática e histórica desde 2006.

2. Do funcionamento do calendário de Argüelles e da importância dos dias “0.0 Hunab Ku” e “Fora do Tempo”

O “Calendário da Paz” funciona a partir da estrutura de três ciclos maias: o Tzolk’in (260 dias, divididos em 20 trezenas), o Ja’ab’ (365 dias, divididos em 18 meses de 20 dias e um ultimo período de 5 dias) e o “Tun-Uc” (364 dias, divididos em 13 ciclos de 28 dias). Contudo, ao contrário dos calendários antigos, o calendário de José Argüelles instituiu uma fórmula matemática simplificada no sentido de, contraditoriamente, transportar a estrutura desses ciclos para uma correspondência fixa ao calendário gregoriano.

Isto significa dizer que a mudança matemática proposta por Argüelles para sincronizar e “modernizar” o calendário maia na verdade serviu para que sua estrutura fosse sincronizada ao próprio calendário gregoriano, tão criticado pelo próprio.

Na prática, isto se prova facilmente: basta constatar que o dia de ano novo, no “Calendário da Paz”, é sempre equivalente ao dia 26 de julho, no calendário gregoriano. Isto evidencia uma sincronia que vai no sentido oposto àquele do discurso, isto é, ao invés de ser uma alternativa que rompe de fato com o calendário gregoriano, torna-se uma versão que de maneira intencional se relaciona e se submete à matemática inerente ao calendário gregoriano.

A solução matemática encontrada por Argüelles para que os 365 dias do ano maia tivessem correspondência fixa aos 365 dias do calendário gregoriano foi o uso do dia que ficou convencionado como “0.0 Hunab Ku”. Este seria o dia (ou o não-dia) equivalente aos dias 29 de fevereiro. Dessa forma, este não-dia não tem equivalência própria seja no âmbito do ciclo de 260, 364 ou 365 dias. Na prática se, num ano bissexto, o dia 28 de fevereiro for o 10, o dia 11 será apenas em 1º de março.

Isto significa dizer, também, que se preferiu instituir um dia em que a sequência de dias deixasse de ser contada para favorecer uma simplificação matemática que ajuda o “calendário da paz” a harmonizar-se e sincronizar-se com o calendário gregoriano. Contudo, o dia “0.0 Hunab Ku” explica apenas como José Argüelles adequou a estrutura do ciclo maia de 365 dias – e por conseguinte do ciclo de 260 dias – ao calendário gregoriano.

Faltava, ainda, sincronizar o ciclo de 364 dias dentro dessa estrutura. Daí vem o tão falado “Dia Fora do Tempo” (DFT). Diferente do dia “0.0 Hunab Ku”, que poderia ser considerado “fora do tempo” por não ser contado em nenhum calendário que integra o Dreamspell, o DFT tem, como função matemática, somar um dia a mais no ciclo de 364 dias, e assim faz com que suas datas (e suas “13 Luas”) encontrem equivalente fixo tanto no ciclo maia de 365 dias quanto no calendário gregoriano.

3. Da influência colonial no calendário de Argüelles e o paradoxo do resgate maia galáctico

Fato pouco comentado, contudo, é o de que os métodos descritos na parte anterior a esta, tem precedentes maias, sim, precedentes nativos no México, sendo assim tem, ao menos parcialmente, uma origem mexicana. Contudo, antes de legitimar e dar força às teorias de Argüelles, estes precedentes servem apenas para levantar mais contradições. Argüelles faz por repetir manobras matemáticas que, em tempos coloniais, quando os invasores europeus já impunham suas vontades, foram usadas justamente para sincronizar o calendário maia ao calendário europeu.

Isto significa dizer que, historicamente, a mesma prática replicada por Argüelles com o dia “0.0 Hunab Ku” já havia sido oficializada pelos nativos (sem tal nome, claro), sob influência europeia e cristã, de maneira a adequar o calendário antigo ao calendário dos invasores. Prática similar ocorreu em diversas etnias, principalmente entre os séculos XVI e XVII, e embora o dia europeu que era suprimido da conta nativa pudesse variar, o dia 29 de fevereiro era um deles.

Neste sentido, o caráter de resgate dos “maias galácticos” encontra um grande problema, imerso num paradoxo. Na mitologia argüelliana, fica clara uma relação entre Argüelles e Pakal, o (hoje) mais popular governante maia, que reinou em Palenque no século VII. O encantamento dos sonhos de Argüelles está, de certa maneira, amparado naquele período histórico e, mais do que isso, é àquele período histórico que o termo “maias galácticos” se enquadra, quase como uma espécie de sinônimo para “maias antigos” ou “maias clássicos”.

Como poderia, portanto, o calendário argüelliano fazer uso de medidas empregadas mais de 500 anos após o chamado período clássico maia e que foram introduzidas como forma de submeter os calendários antigos ao calendário do invasor?

Até onde a ideia de um resgate dos “maias galácticos” pode ser prejudicada quando nos damos conta de que a forma de contar proposta por Argüelles encontra mais referencial no período colonial do que no período que justifica a própria categoria de “maias galácticos”?

Dito de outra forma: se as estratégias da conta de Argüelles têm menos de 500 anos, e o próprio Pakal não as utilizou, há como falar num resgate da ancestralidade que se almeja? Mais: se Pakal não utilizou o calendário como Argüelles, que sentido os dias dedicados ao antigo senhor maia podem de fato ter no “calendário da paz”, se não vinculam a um ciclo que Pakal celebraria de fato naquele momento?

Entendemos que estes dados evidenciam um paradoxo insuperável, uma contradição intransponível e que, ao contrário do discurso, separam o calendário de Argüelles completamente dos calendários antigos e de qualquer possibilidade séria de um resgate pertinente do que o próprio Argüelles chamou de cultura “maia galáctica”.

O calcanhar de aquiles do “congelamento” incentivado ou até imposto pelos europeus mostra que a própria distinção entre “maia galácticos” e “maias contemporâneos” se torna falaciosa. Tal distinção visava justamente dizer que o conhecimento e o calendário dos “maias galácticos”, do tempo de Pakal, havia sido perdido e que, mesmo respeitando as tradições contemporâneas, o “Calendário da Paz” se diferenciava deste (e, nas entrelinhas, era superior a este) na medida em que resgata este conhecimento perdido.

Uma vez que a história nos mostra que a manobra de adequação e congelamento dos calendários maias ao calendário europeu influencia muito mais a forma de funcionamento do calendário de Argüelles, todo este discurso dos “maias galácticos” perde qualquer apelo às mentes que não estão demasiado envolvidas ao culto em que este calendário da nova era se tornou.

Se aparentemente, na pior das hipóteses, poderíamos falar dessa origem colonial para o calendário de Argüelles, o mesmo não serve para justificar a ordem dos dias deste calendário no ciclo de 260 dias, sendo, até onde sabemos, incompatível às das etnias em que o calendário foi congelado.

4. Breve comentário sobre a convergência harmônica

A convergência harmônica foi o grande evento que inspirou e impulsionou Argüelles a escrever (ou apressar) “O fator maia”. Este ciclo, em agosto de 1987 seria, de acordo com Tony Shearer, o fim de um grande período de trevas cujo início estava ancorado ao evento mítico de partida de Quetzalcoatl (divindade, “Serpente Emplumada”) da Mesoamérica e que passa pela problemática interpretação de que o invasor Hernán Cortez seria o retorno de Quetzalcoatl. 9 ciclos de 52 anos após Cortez seria o ponto de referência para se calcular a convergência harmônica, o fim de um ciclo de trevas que havia iniciado justamente no encontro entre Cortez e o grande líder mexica (asteca) Moctezuma. As contas de Shearer, contudo, também não apontam para 9 ciclos exatos de 52 anos, de maneira que a data de agosto de 1987 também é problemática por si.

O que talvez muito ainda se ignore é o fato de que Argüelles aprendeu sobre isto com o próprio Tony Shearer. Mais: Tony Shearer usava outra ordem dos dias. Argüelles teve contato com a ordem nativa dos dias e escolheu seguir sua própria versão.

O DFT de 2013 é apontado como uma espécie de ápice, a completude de 26 anos de convergência harmônica e o primeiro DFT pós-2012. Contudo, parece que esqueceram-se de Tony Shearer e do calendário que ele usava, ao celebrar tal ciclo.

5. Considerações finais: “tempo natural”?

Resumidamente, este texto apresenta razões suficientes para que o “calendário da paz” não seja considerado, em hipótese alguma, um calendário maia.

A noção de “tempo natural” esbarra claramente na intervenção humana sobre a organização e a administração do tempo. Isto significa que, ao introduzir os dias “0.0 Hunab Ku” e “Fora do Tempo”, e graças a eles adequar seu calendário ao gregoriano, Argüelles está na verdade afastando-se de uma defesa sólida do “tempo natural” na medida em que materializou uma versão modificada de uma forma de entender e organizar o tempo culturalmente. Ou seja, uma versão modificada de um calendário que já havia sido culturalmente construído não se sustenta enquanto “tempo natural”, ao contrário, materializa mais intervenções que afastam-na desse suposto “tempo natural”, aproximando-o da abstração do tempo.

E ainda que se utilizasse a versão original dessa estrutura matemática e calendárica – teríamos que voltar ao tempo da oralidade, pré-escrita, bem antes dos maias, quão expressão do “tempo natural” eles seriam? Ou, sendo mais objetivo, quanto de observação pautada no mundo natural o calendário teria de fato, antes da construção meramente cultural ou social do tempo e da idealização abstrata de que “tempo é arte”? Entendemos que não há razões para defendermos a ideia de um “tempo natural” universal se ele depende do uso de um calendário específico modificado por um kaxlan e que agrega elementos de outras culturas . E é exatamente isto que o “calendário da paz” defende, sem sequer se embasar com propriedade na antiga tradição que dizem trabalhar para resgatar.

Continuaremos a evidenciar o que é silenciado a respeito disto tudo, mas o “Sincronário da Paz” continua muito forte política e economicamente no Brasil, enquanto o Projeto CMAIA é apenas um foco independente de resistência e esclarecimento sobre aquilo que a eles próprios não convêm esclarecer.

No responses yet

Trackback URI | Comments RSS

Leave a Reply