ago 25 2010

El Ceibal: um sítio arqueológico Maia quase ignorado pelo público

Por Thiago Cavalcanti

Estive na Guatemala há quase um ano, e tive a oportunidade de visitar mais de uma dezena de sítios. Este sítio, particularmente, chamou a atenção a princípio por uma razão: o acesso via barco, num belo passeio através do Rio de La Pasión. Apesar de haver acesso via terra, recomenda-se a viagem de barco, que dura cerca de 40 minutos, talvez (?), saindo da cidade de Sayaxché.



Localizado na região do Petén, para onde o turista comum costuma ir apenas para visitar o grandioso sítio arqueológico de Tikal, El Ceibal (também chamado de Ceibal ou Seibal) também é, assim como Tikal, um Parque Nacional. Ceibal significa algo como “Lugar de muitas ceibas” ou “Lugar onde muitas ceibas crescem”, referência à abundância encontrada no sítio da árvore conhecida como ceiba (ceiba é, na verdade, um gênero botânico).

Uma ceiba jovem, com seus espinhos (que eram usados em sacrifícios ou torturas), em El Ceibal

Ocupado por séculos, desde aproximadamente 900 a.C. (!) até o fim do século 9 d.C., era um sítio estrategicamente localizado, à margem do rio e ao mesmo tempo elevado o suficiente para controlar o próprio rio e sua outra margem, sendo, talvez por isso mesmo, o maior e mais importante sítio da toda a região por onde se estende o Rio de La Pasión.

Chegada a El Ceibal via barco

Ao chegar a El Ceibal através do Rio de La Pasión, temos em destaque este belo outdoor e uma “bela” subida. Trata-se de um bom exercício, e a subida pode demorar 15, 20 minutos, ou até mais. Atualmente, poucos trechos da subida são em degraus artesanais (cavados na terra), sendo na maior parte uma trilha de subida que exige esforço e que pode se tornar um caminho relativamente traiçoeiro dependendo do estado do solo e de onde se pisa (cuidado com o limo). Por isso, talvez não seja um caminho ideal para idosos e/ou pessoas mais debilitadas.

Um dos melhores trechos da trilha que vai da margem do rio até o sítio restaurado

Terminada a subida, já se avista uma primeira placa dizendo “Calçada 3″, mas o mapa aponta que estaríamos na verdade na “Calçada 2″. O ideal, ou ao menos o que eu recomendo, é que se siga o caminho à esquerda. Ele levará até uma das estruturas restauradas, que está de certa forma isolada do resto do sítio como o temos hoje. Trata-se da Estrutura 79, uma plataforma circular usada para observações astronômicas e meteorológicas. Em frente a ela, um altar usado para sacrifícios, com uma cabeça de Jaguar em sua borda. Entretanto, o altar está tão danificado que mais parece uma tartaruga e eu poderia acabar saindo dali acreditando realmente tratar-se de uma tartaruga.

Estrutura 79. Na imagem, à direita, alguns fiapos da palha da cobertura que protege o altar

Altar posicionado em frente à Estrutura 79. Parece ou não uma tartaruga?

Em seguida, o retorno pelo caminho nos leva até a mesma placa que encontramos ao fim da subida, e ali é interessante pegar a trilha à esquerda (à frente para quem acaba de subir desde a margem do rio), trilha essa que passa ao lado do campo de jogo de pelota, que simplesmente não pode ser reconhecido por um olhar destreinado.
A trilha termina onde a densidão das árvores de ambos os lados revelam um bom espaço aberto e gramado: é quando chegamos ao acampamento. Estrategicamente colocadas, três lindas réplicas de estelas podem ser avistadas tão logo se revela o ambiente aberto, após mais placas que indicam a chegada a El Ceibal. À frente, imóveis modernos, onde encontram-se banheiros e dormitórios. À direita, um pequeno pavilhão coberto, que é uma espécie de singelo e modesto ponto central do sítio. Ali, temos noção da grandiosidade do sítio, com uma maquete que mostra todas as principais estruturas que, infelizmente, ainda não foram escavadas, em sua maioria absoluta.
Naquele espaço, um guatemalteco se apresentou: trata-se de Manuel de Jesus Tutcetina, que trabalha no sítio ajudando na manutenção e em escavações. Ele me confirmou que, atualmente, simplesmente não cobram ingresso aos visitantes. Visitantes, aliás, só vi dois, um casal, cuja visita foi muito mais rápida que a minha: foi muito bom ter o sítio vazio, “só pra mim”. Tikal é um caos de visitantes do mundo todo, e por isso me pareceu apropriado o título deste relato: El Ceibal é, de fato, um sítio arqueológico Maia quase ignorado pelo público, e talvez não fosse exagero tirar o “quase” dali.
Manuel contou que os trabalhadores fazem turnos de 20 dias no sítio e 10 dias em casa, a cada mês. Até então, simplesmente não havia luz elétrica ou água encanada, o que não deve ser muito agradável para os trabalhadores. Manuel não parece queixar-se disto propriamente, mas de outra coisa: infelizmente, apenas duas estruturas foram escavadas e restauradas em El Ceibal até então, e as verbas para esse tipo de trabalho costumam ser muito mais direcionadas a Tikal, por razões óbvias, o que nos permite supor que nada ou pouca coisa mudou em El Ceibal até hoje, no segundo semestre de 2010, o que desaponta não só a Manuel como também a mim.
O amigo guatemalteco aceitou gravar um vídeo, uma espécie de “entrevista”, onde transmitiu informações preciosas, quando também esclareceu que a “tartaruga” é na verdade um “jaguar”:



No mesmo local, Manuel forneceu um belíssimo folder contendo boas informações e um mapa do sítio (Clique aqui para baixar o folder de El Ceibal em alta resolução – em PDF, 22.2MB) e mostrou algumas singelas peças de artesanato que estavam à venda: escolhi uma pequena escultura de madeira de um Macaco-Aranha. Manuel fez questão de guiar o restante da visita, caminhando até a outra das duas únicas estruturas já restauradas em El Ceibal: trata-se da Estrutura A-3, um pequeno e charmoso templo, talvez a estrutura que eu mais gostei de conhecer entre todas que visitei, entre todos os sítios. Em seus quatro lados, quatro portas alinhadas às quatro direções cardinais, mas que atualmente estão descaracterizadas enquando portas graças à cobertura do templo que ainda precisa ser restaurada.

Estrutura A-3 de El Ceibal

Ao redor do templo e à sua frente (ou à esquerda do templo, para quem parte do pavilhão) encontram-se estelas magníficas, originais. Manuel relatou que aquela coleção de estelas é a mais preciosa e lembrou que em Tikal já não existem estelas originais, como ali, tendo sido removidas e espalhadas em museus.

Detalhe da estela 8 de El Ceibal - clique para ampliar

Detalhe da estela 14 (ou 15) de El Ceibal - Clique para ampliar

Manuel fez questão de completar o caminho até a trilha de retorno ao rio, acessando a mesma calçada onde tudo começou, porém pela extremidade oposta àquela que desemboca na Estrutura 79. Nos despedimos e a descida demandou cuidado por conta do piso escorregadio. Ainda que mais rápida, a descida pode ser também mais perigosa. E um dia espero estar lá novamente…

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