out 13 2012

Por uma antropologia maianista (e indigenista) ao lado dos povos maias e mesoamericanos

Este post marca o início de uma empreitada de preocupação antropológica e indigenista mais efetiva neste espaço virtual, sempre em busca de desfazer nós que prendem o entendimento.

Um salve pra todos os amigos nesse dia 13 B’atz (13-Macaco) do calendário ritual maia, equivalente a 13/10/2012 e que representa o fio de ideias que há de nos (re)unir e desatar os velhos nós da (in)diferença e dos conflitos egoístas.

Como alguns dos leitores sabem, minhas pesquisas vão tanto pro lado arqueológico quanto antropológico/etnológico mesoamericano, especialmente maia, já há alguns anos. Combati nos últimos anos as correntes new age no Brasil, que representam uma mercantilização e uma deturpação do patrimônio cultural maia em favor de ideologias políticas e religiosas, como é o caso do Dreamspell (Sincronário da Paz no Brasil). Hoje, dentro da academia, me posiciono politicamente dentro da área de antropologia, rompendo com a tradição colonialista, de centro-direita desta disciplina ainda hoje marcadamente eurocêntrica chamada antropologia.

Por conta dos problemas que enfrentamos no mundo de hoje, deixo pra vocês uma semente pra quem quiser refletir um pouco acerca da história social da Guatemala e da forte e combativa inserção indígena, nesse caso guatemalteco essencialmente Maia (22 etnias), além de Xinka e Garífuna.

Recentemente, aliás, os Garífunas sofrem com uma tentativa de golpe: o Estado de Honduras quer literalmente privatizar três cidades, impactando o direito à autonomia Garífuna! Sobre isso:
http://www.guardian.co.uk/world/2012/sep/06/honduras-new-city-laws-investors

A questão que motivou o breve texto, contudo, é mesmo Guatemala, pois é onde podemos entender melhor o fragmentado e diverso movimento maia, que sobreviveu culturalmente de maneira mais efetiva lá. Abaixo faço alguns comentários que ajudam um pouco a complementar a entrevista que está no seguinte link: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=62887

Especialmente o século passado marcou uma série de massacres aos maias por parte do Estado guatemalteco e do capital, assim como ocorreu com as diferentes formas de resistência em tantos outros lugares na América Latina (incluindo o Brasil).

A famigerada Monsanto, por exemplo, comete o crime ecológico e cultural de (im)plantar milho transgênico lá. Milho moído e água são, na cosmovisão maia (vide Popol Wuj), os ingredientes com os quais os primeiros corpos humanos foram moldados em sua origem. Simbolicamente, num sentido de valor ritual, milho transgênico pode ser encarado também como uma espécie de “clonagem humana”, o que até hoje é imenso tabu no mundo globalizado. Mas quase ninguém gosta de falar disso no mundo, e no Brasil os petistas que querem se pintar de esquerda dizem que precisamos combater a Monsanto enquanto entregam esse “combate” à ideia gradual de “processo histórico”, que no fundo depende da mobilização da base para pressionar cada vez mais em meio à alienação do capital.

Para além disso, e aqui voltando à Guatemala, existe a “burguesia indígena” que, constituindo uma suposta “elite” indígena de influência eurocêntrica, acaba por ser ideologicamente cooptada tanto pela onda new age quanto pelo capital que chega de mãos dadas com o desejo de apropriação do patrimônio maia por parte do Estado com os óbvios fins mercantis e turísticos da pior espécie. Não por acaso o que mundo tem é uma série de informações desencontradas sobre o que é maia (a começar pela gafe mais repetida, a “pedra do sol” mexica descrita como ”calendário maia”), e ocorrem muitas misturas ideológicas que deturpam a identidade maia em nome de inserção política e econômica da burguesia e do Estado com suas identidades nacionais fabricadas que são estabelecidas como “maia” junto à diplomacia e as relações internacionais que abrem o caminho para a manipulação da mídia vendida ao redor do globo reproduzir os clichês.

Esta situação política entre Estado da Guatemala e movimento maia chegou – pasmem – ao conferimento de um “título” ao ex-presidente da Guatemala (Alvaro Colom), oficialmente uma espécie de “reconhecimento ancestral maia” ao governante do Estado opressor. Esta “benção” foi dada por uma liderança, o “maia” mais próximo ao governo da Guatemala, o que gera muita polêmica até hoje. A entrevista no Rebelion.ORG dessa época. O logotipo do governo federal levava sempre o nome de Alvaro Colom nas publicações do calendário maia que o governo ajudava a financiar e que não necessariamente foram sempre referências confiáveis. Há um destaque maior tanto no caso de continuidade cultural dos calendários quanto de influência política por parte de duas etnias maias, a K’iche’ e a Kaqchikel, que ocuparam mais os espaços urbanos e se instituíram mais; por isso alguns indivíduos dessas etnias tiveram maior capacidade para construir a burguesia indígena em torno do capital, vendendo consultas maias a qualquer turista que aparecer. Há uma tentativa de imposição de determinados usos e rituais do calendário que são de uma ou poucas etnias para que seja “MAIA” num sentido de unidade étnica que nunca existiu na história maia, desde a antiguidade. Conseguiram implantar em outras etnias seu desejo de unificação da identidade maia, que perigosamente se aproxima do Estado e pode desmobilizar ainda mais a resistência maia.

O ciclo de 2012 é uma teoria, e portanto sua tomada enquanto “fato” é uma falácia que essa burguesia e o Estado compraram de acadêmicos e conseguiram embutir na base do movimento indígena e indigenista pois, entre o proletariado e os campesinos, há algumas décadas o sentimento de “renascença maia” existe e é forte. Isto rompe com o sincretismo católico que vigora desde a invasão espanhola e passa pela época da ditadura militar e da guerra civil onde a maioria dos mortos foi maia. Por outro lado, essa resistência cultural da base é sufocada. Não é fim do mundo, nem do calendário maia, apenas de um ciclo que foi resgatado por um grupo de acadêmicos (e existem grupos de influência new age também) e, por essa razão, não é uma contagem (como dizemos, correlação de calendários) unânime – existem dezenas de teorias acadêmicas diferentes para marcar o ciclo de “2012″ quatrocentos anos pra trás ou pra frente.

Estamos diante de um ciclo que é escolha e imposição política. E da invenção de novas tradições por parte de uma religião institucionalizada e apoiada pelo Estado, que tenta tornar homogêneas as cerimônias das diversas etnias maias. Isto é oposto ao caminho livre do que chamam de espiritualidade maia (que não é definida por eles como religião) que se afasta do catolicismo e ajuda a manter vários rituais e seus idiomas, preservando as tantas ricas categorias do pensamento ritual e político nativo.

Há poucos dias as forças repressivas da Guatemala mataram seis maias numa grande manifestação… Acho que cientistas sociais combativos do Brasil gostariam de saber desses informes pela autonomia indígena pra ver se passamos a discutir um pouco disso por aqui também, a situação indígena no Brasil e na América Latina!

Estas são apenas algumas das graves questões que não costumam chegar até nós e que são imprescindíveis para entender os próprios maias (e muitos outros indígenas) nos dias de hoje. Como tenho feito campo lá, essas são denúncias importantes até para apresentar o campo e “fatos” e “problemas” dos maias nos dias de hoje ao maior número de pessoas.

Espero que vocês possam levar esse debate mais adiante pra galera interessada, repassando essa mensagem.
Voltando ao calendário maia, me despeço deixando lembranças a todos nesse dia Oxlajuj B’atz (13-Macacos/13-Fios) do ciclo ritual, o fio de ideias que há de nos (re)unir e desatar os velhos nós da (in)diferença, dos conflitos egoístas e das hierarquias de poder forjadas (desde o âmbito familiar até os Estados opressores) para que possamos aproveitar bem a trezena do novo Caminho, que começa amanhã, em nome de uma construção autônoma, consciente e coletiva, cujas ideias estão sempre numa relação de democracia direta efetiva, em debates que não buscam enredar os fios em nós que apenas prendem. Os nós se embolaram da política internacional aos menores municípios, não precisamos embolá-los nas nossas vidas. Dia para os livres pensadores, artistas da produção, resistência racional que não se impõe aos macacos e à natureza como quer o capital; ao contrário, os macacos são símbolos da origem da cultura, como vemos no Popol Wuj com Jun B’atz e Jun Chuwen (ambos 1-Macaco), mas estes acabaram se enredando junto a seus irmãos mais novos e, por isso, perdendo seus lugares sociais na cultura humana.
Abraços,
Thiago Cavalcanti
tcavalcanti@id.uff.br

No responses yet

Trackback URI | Comments RSS

Leave a Reply