jul 25 2013

Introdução ao Sincronário da Paz e seu “Dia Fora do Tempo”: entre política e mística, do “tempo natural” à invasão europeia e o congelamento do Calendário Maia

Por Thiago Cavalcanti

Índice:

0. Nota do autor
1. Introdução ao Sincronário da Paz
2. Do funcionamento do calendário de Argüelles e da importância dos dias “0.0 Hunab Ku” e “Fora do Tempo”
3. Da influência colonial no calendário de Argüelles e o paradoxo do resgate maia galáctico
4. Breve comentário sobre a convergência harmônica
5. Considerações finais: “tempo natural”?

0. Nota do autor

Este texto pretende, à ocasião de mais um dia 25 de julho, “Dia Fora do Tempo” (ou DFT), trazer uma introdução sobre o “Sincronário da Paz” (ou SdP), onde o DFT é celebrado. Este é, antes de mais nada, é um ensaio franco direcionado a todos os leitores que se interessem pelo assunto do Calendário Maia e/ou do “Calendário da Paz” e que pode ser lido no todo ou em partes. Não se pretende um escrito concluído, mas sim pertencente a um âmbito de constante reflexão e diálogo.

1. Introdução ao Sincronário da Paz

Em 1987, veio ao mundo uma obra que marcaria tanto a popularização do “Calendário Maia” quanto do “Fenômeno 2012″. A obra, em forma de livro e escrita pelo estadunidense José Argüelles, chamava-se “O fator maia”, e tratou-se de um esboço daquilo que viria a ser conhecido no Brasil primeiro como “Calendário da Paz” e posteriormente como “Sincronário da Paz”.

Já naquele primeiro livro, contudo, instalou-se uma tentativa para afirmar aquela versão argüelliana, isto é, aquela ordem específica dos dias divulgada pelo livro seria “o calendário maia” (ver início do capítulo 6). Argüelles fora acusado de fazer uso da estrutura de calendários maias para impor sua própria versão e sua ordem dos dias. Mais do que isso, seus principais críticos apontam para uma manipulação da conta de 260 dias, de maneira que os dias rituais de nascimento de Argüelles e sua segunda (e principal) esposa, Lloydine, fossem particularmente interessantes para a sustentação de sua própria teoria e de sua espécie de missão espiritual do novo tempo.

Numa breve analogia, o que se fez na prática seria o mesmo que pegarmos o calendário gregoriano mantendo sua estrutura e sua divisão em meses, contudo afirmando que o dia de hoje, 25 de julho, seria, por exemplo, 20 de março, ao mesmo tempo sustentando que essa nova versão é o “calendário gregoriano”. É claro que haveria contestação.

Seguiu-se, ainda no fim da década de 1980 e começo da década de 1990, reações contrárias às teorias de Argüelles e que coincidiam com uma maior elaboração e desenvolvimento do “Dreamspell” (inicialmente um jogo de tabuleiro), nome original do “Sincronário da Paz” em inglês e que significa “Encantamento do Sonho”, que primeiro ilustrou mais diretamente uma política espiritual e estética de Argüelles em busca de legitimação universal para seu calendário.

Mais do que aprofundar acerca do calendário maia, Argüelles parecia cada vez mais abraçar elementos de outras culturas (alheias ao próprio continente americano) como, por exemplo, as “Runas de Futhark” (Escandinávia) e o “I Ching” (China). Para introduzir essas novas práticas, negligenciou-se toda a riqueza dos calendários que, antes mesmo de serem maias, são mesoamericanos e guardam um universo nativo riquíssimo e completamente preterido em nome da inclusão de elementos kaxlan (palavra que alguns maias de hoje usam para designar os “gringos”, os “de fora da tradição”) e da própria vida e experiência artística do casal Argüelles. Resumindo, Argüelles preferiu abraçar as vertentes místicas e o movimento de nova era ao invés do resgate da cultura maia e mesoamericana em si.

Àquela altura seria sistematizada a inserção do que Argüelles chamou de “Conta das 13 Luas”, a divisão do ano em 13 ciclos de 28 dias cuja existência entre os maias, apesar de encontrar respaldo em pesquisas acadêmicas (que tendem a tratar os 13 ciclos como referente às constelações transitadas pelo Sol e não “luas”), ainda não nos permite “cravar” sua correspondência em relação ao calendário gregoriano. Há aí, portanto, ao mesmo tempo uma nova versão hipotética para este ciclo e que viria a justificar o advento do “Dia Fora do Tempo”, do qual falaremos mais adiante.

Além disso, o discurso do “tempo natural”, amparado pela “frequência 13:20″ (oriundo dos dois ciclos, de 13 e de 20 dias, que compõem o calendário ritual mesoamericano, que totaliza 260 dias) e a necessidade sempre reafirmada, que beira o dogma religioso, de se substituir o paradigma de “tempo é dinheiro” pelo de “tempo é arte”, junto com a problematização da inconstância do calendário gregoriano (com meses que variam de 28 a 31 dias), deram a Argüelles a confiança de um projeto sólido e que poderia se inserir politicamente no mundo.

Baseado numa retórica cujos argumentos principais circundavam esse discurso do “tempo natural” e cuja defesa ao mesmo tempo mostrava-se até certo ponto anticapitalista e (neo?) hippie, pregando uma cultura da paz, amor e arte e introduzindo elementos de culturas europeias e asiáticas, Argüelles levou adiante seu projeto de substituição do calendário gregoriano pelo seu próprio calendário. Apresentou-o em especial a duas das instituições mais influentes do mundo e capazes de legitimar sua ambição: a ONU e o Vaticano.

Tendo seus planos junto a essas instituições frustrados, sem conseguir impor uma mudança na ordem mundial do tempo, seu calendário desviou-se por outras sendas, cada vez mais personalistas, que faziam com que o movimento e o calendário literalmente orbitassem em torno de José Argüelles, que passou a ser cada vez mais reverenciado, a partir da narrativa de diversos ritos de passagem e sonhos pessoais (daí o nome Dreamspell), sob diversos títulos, tais como “encerrador do ciclo” (de 2012) e “doutor da cura planetária”, dentro outros. As críticas New Age ao capitalismo e as práticas e explicações místicas ou religiosas poderiam abundar, uma vez tendo falhado a diplomacia burocrática.

Na contramão de seus interesses, a comunidade científica fazia cada vez mais pressão sobre Argüelles e seu movimento para que deixassem de se propagar como “calendário maia”, demonstrando, de diversas maneiras, como sua teoria era falha, como seus escritos continham erros e, principalmente, como o “ciclo de 2012″ que o próprio defendia não estava sendo respeitado, bem como a ordem dos dias do calendário ritual de 260 dias que, diferente do México (de onde se clama uma suposta origem nativa para a versão de Argüelles), foi mantida na Guatemala – fato que já era difundido entre antropólogos há mais de 50 anos.

Acuado, Argüelles buscou outra saída que lhe pusesse numa posição cômoda e ainda de legitimação e resgate do calendário maia ao que se propunha. Instituiu-se o discurso de que seu calendário era diferente daquele hoje mantido, sendo referente ao resgate “maia galáctico”, isto é, os grandes mestres da antiguidade maia que, supostamente teriam abandonado a “nave Terra”, transcendendo a dimensões superiores.

Isto acaba por relacionar-se, também, nas teorias argüellianas e de maneira previsível, às origens extraterrenas e na mítica do retorno ou reencarnação de mestres espirituais, de propósitos revolucionários através da paz. O leitor pode imaginar por si quem seria o mestre do grande ciclo revolucionário de 2012, e que o discurso “maia galáctico” sobreviveu à própria morte de Argüelles, ainda em 2011, ajudando a manter a confusão que, com certeza, têm sido desfeitas no Brasil graças especialmente a nossas contribuições no âmbito do Projeto CMAIA e que culminaram neste sítio, certeiras numa análise matemática e histórica desde 2006.

2. Do funcionamento do calendário de Argüelles e da importância dos dias “0.0 Hunab Ku” e “Fora do Tempo”

O “Calendário da Paz” funciona a partir da estrutura de três ciclos maias: o Tzolk’in (260 dias, divididos em 20 trezenas), o Ja’ab’ (365 dias, divididos em 18 meses de 20 dias e um ultimo período de 5 dias) e o “Tun-Uc” (364 dias, divididos em 13 ciclos de 28 dias). Contudo, ao contrário dos calendários antigos, o calendário de José Argüelles instituiu uma fórmula matemática simplificada no sentido de, contraditoriamente, transportar a estrutura desses ciclos para uma correspondência fixa ao calendário gregoriano.

Isto significa dizer que a mudança matemática proposta por Argüelles para sincronizar e “modernizar” o calendário maia na verdade serviu para que sua estrutura fosse sincronizada ao próprio calendário gregoriano, tão criticado pelo próprio.

Na prática, isto se prova facilmente: basta constatar que o dia de ano novo, no “Calendário da Paz”, é sempre equivalente ao dia 26 de julho, no calendário gregoriano. Isto evidencia uma sincronia que vai no sentido oposto àquele do discurso, isto é, ao invés de ser uma alternativa que rompe de fato com o calendário gregoriano, torna-se uma versão que de maneira intencional se relaciona e se submete à matemática inerente ao calendário gregoriano.

A solução matemática encontrada por Argüelles para que os 365 dias do ano maia tivessem correspondência fixa aos 365 dias do calendário gregoriano foi o uso do dia que ficou convencionado como “0.0 Hunab Ku”. Este seria o dia (ou o não-dia) equivalente aos dias 29 de fevereiro. Dessa forma, este não-dia não tem equivalência própria seja no âmbito do ciclo de 260, 364 ou 365 dias. Na prática se, num ano bissexto, o dia 28 de fevereiro for o 10, o dia 11 será apenas em 1º de março.

Isto significa dizer, também, que se preferiu instituir um dia em que a sequência de dias deixasse de ser contada para favorecer uma simplificação matemática que ajuda o “calendário da paz” a harmonizar-se e sincronizar-se com o calendário gregoriano. Contudo, o dia “0.0 Hunab Ku” explica apenas como José Argüelles adequou a estrutura do ciclo maia de 365 dias – e por conseguinte do ciclo de 260 dias – ao calendário gregoriano.

Faltava, ainda, sincronizar o ciclo de 364 dias dentro dessa estrutura. Daí vem o tão falado “Dia Fora do Tempo” (DFT). Diferente do dia “0.0 Hunab Ku”, que poderia ser considerado “fora do tempo” por não ser contado em nenhum calendário que integra o Dreamspell, o DFT tem, como função matemática, somar um dia a mais no ciclo de 364 dias, e assim faz com que suas datas (e suas “13 Luas”) encontrem equivalente fixo tanto no ciclo maia de 365 dias quanto no calendário gregoriano.

3. Da influência colonial no calendário de Argüelles e o paradoxo do resgate maia galáctico

Fato pouco comentado, contudo, é o de que os métodos descritos na parte anterior a esta, tem precedentes maias, sim, precedentes nativos no México, sendo assim tem, ao menos parcialmente, uma origem mexicana. Contudo, antes de legitimar e dar força às teorias de Argüelles, estes precedentes servem apenas para levantar mais contradições. Argüelles faz por repetir manobras matemáticas que, em tempos coloniais, quando os invasores europeus já impunham suas vontades, foram usadas justamente para sincronizar o calendário maia ao calendário europeu.

Isto significa dizer que, historicamente, a mesma prática replicada por Argüelles com o dia “0.0 Hunab Ku” já havia sido oficializada pelos nativos (sem tal nome, claro), sob influência europeia e cristã, de maneira a adequar o calendário antigo ao calendário dos invasores. Prática similar ocorreu em diversas etnias, principalmente entre os séculos XVI e XVII, e embora o dia europeu que era suprimido da conta nativa pudesse variar, o dia 29 de fevereiro era um deles.

Neste sentido, o caráter de resgate dos “maias galácticos” encontra um grande problema, imerso num paradoxo. Na mitologia argüelliana, fica clara uma relação entre Argüelles e Pakal, o (hoje) mais popular governante maia, que reinou em Palenque no século VII. O encantamento dos sonhos de Argüelles está, de certa maneira, amparado naquele período histórico e, mais do que isso, é àquele período histórico que o termo “maias galácticos” se enquadra, quase como uma espécie de sinônimo para “maias antigos” ou “maias clássicos”.

Como poderia, portanto, o calendário argüelliano fazer uso de medidas empregadas mais de 500 anos após o chamado período clássico maia e que foram introduzidas como forma de submeter os calendários antigos ao calendário do invasor?

Até onde a ideia de um resgate dos “maias galácticos” pode ser prejudicada quando nos damos conta de que a forma de contar proposta por Argüelles encontra mais referencial no período colonial do que no período que justifica a própria categoria de “maias galácticos”?

Dito de outra forma: se as estratégias da conta de Argüelles têm menos de 500 anos, e o próprio Pakal não as utilizou, há como falar num resgate da ancestralidade que se almeja? Mais: se Pakal não utilizou o calendário como Argüelles, que sentido os dias dedicados ao antigo senhor maia podem de fato ter no “calendário da paz”, se não vinculam a um ciclo que Pakal celebraria de fato naquele momento?

Entendemos que estes dados evidenciam um paradoxo insuperável, uma contradição intransponível e que, ao contrário do discurso, separam o calendário de Argüelles completamente dos calendários antigos e de qualquer possibilidade séria de um resgate pertinente do que o próprio Argüelles chamou de cultura “maia galáctica”.

O calcanhar de aquiles do “congelamento” incentivado ou até imposto pelos europeus mostra que a própria distinção entre “maia galácticos” e “maias contemporâneos” se torna falaciosa. Tal distinção visava justamente dizer que o conhecimento e o calendário dos “maias galácticos”, do tempo de Pakal, havia sido perdido e que, mesmo respeitando as tradições contemporâneas, o “Calendário da Paz” se diferenciava deste (e, nas entrelinhas, era superior a este) na medida em que resgata este conhecimento perdido.

Uma vez que a história nos mostra que a manobra de adequação e congelamento dos calendários maias ao calendário europeu influencia muito mais a forma de funcionamento do calendário de Argüelles, todo este discurso dos “maias galácticos” perde qualquer apelo às mentes que não estão demasiado envolvidas ao culto em que este calendário da nova era se tornou.

Se aparentemente, na pior das hipóteses, poderíamos falar dessa origem colonial para o calendário de Argüelles, o mesmo não serve para justificar a ordem dos dias deste calendário no ciclo de 260 dias, sendo, até onde sabemos, incompatível às das etnias em que o calendário foi congelado.

4. Breve comentário sobre a convergência harmônica

A convergência harmônica foi o grande evento que inspirou e impulsionou Argüelles a escrever (ou apressar) “O fator maia”. Este ciclo, em agosto de 1987 seria, de acordo com Tony Shearer, o fim de um grande período de trevas cujo início estava ancorado ao evento mítico de partida de Quetzalcoatl (divindade, “Serpente Emplumada”) da Mesoamérica e que passa pela problemática interpretação de que o invasor Hernán Cortez seria o retorno de Quetzalcoatl. 9 ciclos de 52 anos após Cortez seria o ponto de referência para se calcular a convergência harmônica, o fim de um ciclo de trevas que havia iniciado justamente no encontro entre Cortez e o grande líder mexica (asteca) Moctezuma. As contas de Shearer, contudo, também não apontam para 9 ciclos exatos de 52 anos, de maneira que a data de agosto de 1987 também é problemática por si.

O que talvez muito ainda se ignore é o fato de que Argüelles aprendeu sobre isto com o próprio Tony Shearer. Mais: Tony Shearer usava outra ordem dos dias. Argüelles teve contato com a ordem nativa dos dias e escolheu seguir sua própria versão.

O DFT de 2013 é apontado como uma espécie de ápice, a completude de 26 anos de convergência harmônica e o primeiro DFT pós-2012. Contudo, parece que esqueceram-se de Tony Shearer e do calendário que ele usava, ao celebrar tal ciclo.

5. Considerações finais: “tempo natural”?

Resumidamente, este texto apresenta razões suficientes para que o “calendário da paz” não seja considerado, em hipótese alguma, um calendário maia.

A noção de “tempo natural” esbarra claramente na intervenção humana sobre a organização e a administração do tempo. Isto significa que, ao introduzir os dias “0.0 Hunab Ku” e “Fora do Tempo”, e graças a eles adequar seu calendário ao gregoriano, Argüelles está na verdade afastando-se de uma defesa sólida do “tempo natural” na medida em que materializou uma versão modificada de uma forma de entender e organizar o tempo culturalmente. Ou seja, uma versão modificada de um calendário que já havia sido culturalmente construído não se sustenta enquanto “tempo natural”, ao contrário, materializa mais intervenções que afastam-na desse suposto “tempo natural”, aproximando-o da abstração do tempo.

E ainda que se utilizasse a versão original dessa estrutura matemática e calendárica – teríamos que voltar ao tempo da oralidade, pré-escrita, bem antes dos maias, quão expressão do “tempo natural” eles seriam? Ou, sendo mais objetivo, quanto de observação pautada no mundo natural o calendário teria de fato, antes da construção meramente cultural ou social do tempo e da idealização abstrata de que “tempo é arte”? Entendemos que não há razões para defendermos a ideia de um “tempo natural” universal se ele depende do uso de um calendário específico modificado por um kaxlan e que agrega elementos de outras culturas . E é exatamente isto que o “calendário da paz” defende, sem sequer se embasar com propriedade na antiga tradição que dizem trabalhar para resgatar.

Continuaremos a evidenciar o que é silenciado a respeito disto tudo, mas o “Sincronário da Paz” continua muito forte política e economicamente no Brasil, enquanto o Projeto CMAIA é apenas um foco independente de resistência e esclarecimento sobre aquilo que a eles próprios não convêm esclarecer.

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mar 24 2013

Quando “nosso” calendário suplanta o calendário maia

Por Thiago Cavalcanti

Ontem, pelas redes sociais, me deparei com uma dessas imagens que trazem uma mensagem em texto de uma maneira mais atraente, acompanhado de uma foto ou ilustração. A mensagem, no caso, afirmava que um famoso governante maia, talvez o mais famoso deles, estava “fazendo aniversário” justamente ontem, dia 23 de março no calendário gregoriano, e tal afirmação se embasava num nascimento que teria ocorrido a 23 de março de 603 (há 1410 anos, portanto).

O governante trata-se de Pakal, soberano de Palenque durante a maior parte do século VII, mais conhecido pelos leigos como “Pacal Votan” (clique aqui para ler um esclarecimento a esse respeito). Sua data de nascimento, de acordo com os registros históricos deixados nas inscrições encontradas no mesmo lugar onde viveu, pode ser escrita em nosso alfabeto como 9.8.9.13.0 8 Ajaw 13 Pop, e na verdade é uma data em três calendários diferentes: 9.8.9.13.0, data no calendário conhecido como “conta longa”, equivale a 1.357.100 dias transcorridos desde o marco inicial do referido calendário; 8 Ajaw é a data no calendário ritual de 260 dias, 160º destes dias, se considerarmos como referência o mesmo marco inicial da “conta longa”; e 13 Pop, data no calendário civil/agrário de 365 dias, sendo o 14º destes dias (portanto, 13 dias depois do “ano novo”).

Todo esse registro, que os próprios maias nos deixaram, parece, contudo, ficar em segundo plano diante de afirmações como “23 de março é a data do aniversário de Pakal”. Mais do que isso, podemos dizer que esse registro é negligenciado e ocultado aos olhos do público, de maneira intencional ou inconsciente, talvez partindo-se do pressuposto de que, para o público, supostamente leigo, não interessa saber as datas maias, pois não as entenderia, mas sim suas datas equivalentes no calendário gregoriano. Igual fenômeno todos pudemos observar há pouco mais de 3 meses, quando o dia “21 de dezembro de 2012″ virou sinônimo de “fim do ciclo maia” e foi deturpado como se fora também fim do mundo ou fim do calendário maia, ambas afirmações infundadas. Exemplos de afirmações como “inscrição mencionando o dia de 21 de dezembro de 2012″ podem ser encontrados por quase todas as mídias (clique aqui para ver a reportagem que contém a afirmação citada entre aspas).

Oras, afirmar que uma inscrição maia menciona o dia 21 de dezembro de 2012 não é apenas inapropriado, mas mentiroso. Se os maias não usavam o calendário gregoriano, é simplesmente impossível que uma data deste calendário tenha sido registrada por eles. Ao público em geral, costuma-se oferecer uma leitura mastigada e parcial, e é justamente aqui que o “nosso” calendário (o calendário gregoriano) suplanta o calendário maia: dá-se tudo de “bandeja”, como se tudo estivesse muito explicado e certo, omitindo os detalhes oriundos dos calendários maias propriamente ditos e preferindo oferecer aos leitores, ouvintes e telespectadores nada mais do que as datas do calendário gregoriano.

A razão para que a afirmação de que Pakal faz “aniversário” no dia de 23 de março seja considerada falsa (ou pelo menos equivocada, incompleta ou parcial) é essa: Pakal não seguia o calendário gregoriano. Isto deveria ou poderia bastar, mas é preciso compreender um pouco além o que isso quer dizer: ao se afirmar que o “aniversário” de um maia antigo ocorre numa data do calendário gregoriano, se está também impondo este calendário em detrimento ao calendário que este próprio maia utilizou. Isto é, ao mesmo tempo, eurocentrismo (a imposição de elementos ou interpretações fundadas na cultura europeia) e anacronismo (que consiste em analisar um tempo histórico sob os conceitos de uma época distinta), ou seja, uma afirmação que se equivoca na tentativa de situar-se no espaço e no tempo. Ao dizer que o “aniversário” de um maia antigo é 23 de março, se está na verdade não apenas simplificando, mas também deturpando os registros maias e mentindo para o público. Esta data, se verdadeira, seria secundária e inexpressiva em comparação às datas maias, mas há uma inversão de valores que convém a muitos pesquisadores e jornalistas ocidentais e é exatamente o contrário que acaba ocorrendo.

O problema aumenta de tamanho se trouxermos à cena o famoso (entre os pesquisadores maianistas) “problema da correlação”. Resumindo, o problema é o seguinte: a tal “conta longa” mencionada como parte da data de nascimento de Pakal (justamente o dado mais importante para situá-lo historicamente em relação ao calendário europeu) caiu em desuso e não sobreviveu até os dias de hoje. Fez-se necessária uma espécie de reconstrução daquela conta, releituras e teses (umas mais e outras menos científicas) para tentar dizer que dia seria hoje na “conta longa” e encontrar a maneira certa de correlacionar (daí o nome “correlação”) a “conta longa” com os calendários europeus. Como é de se imaginar, por estas razões não há sequer um consenso a respeito de qual correlação é a correta. Isto significa que nem mesmo se pode afirmar que a data maia de 9.8.9.13.0 8 Ajaw 13 Pop equivale a 23 de março de 603 e, consequentemente, muito menos se poderia afirmar que 23 de março de 2013 seria aniversário de Pakal.

Ainda que se assuma como verdadeira a correlação em que o nascimento de Pakal coincide com 23 de março de 603, isto não bastaria para afirmar que 23 de março de 2013 é seu “aniversário” sem que isto incorresse nos erros do eurocentrismo e do anacronismo, já que tal data não teria nenhuma relevância similar para Pakal por duas simples razões: usando esta correlação, a data de 23 de março de 2013 não coincide com 8 Ajaw e também não coincide com 13 Pop. Seriam estas as duas datas mais próximas ao significado que “aniversário” tem pra nós. O dia 8 Ajaw seria o “aniversário” de Pakal no ciclo de 260 dias e 13 Pop seria o “aniversário” de Pakal no ciclo de 365 dias. Oras, se a data não coincide com nenhuma destas duas datas, então simplesmente não pode ser “aniversário” de Pakal, simples assim.

Resolvi escrever este post para atentar para esse tipo de erro, que realmente me incomoda e certamente é inapropriado no contexto das ciências humanas e sociais, já que devemos entender as outras culturas por elas mesmas, evitando ao máximo a inclusão de elementos de outras culturas. Quando o calendário gregoriano suplanta o calendário maia dessa maneira, na verdade estamos entendendo mais sobre a maneira como o homem ocidental costuma lidar com as coisas do que exatamente entendendo o mundo dos outros. Não basta simplificar, não basta dizer que Pakal nasceu em 23 de março de 603 e que, por isto, todos os dias 23 de março são “aniversários” dele. Isto valeria apenas para quem segue o calendário gregoriano e gostaria que a coisa fosse assim. Isto vale pra nós, que nascemos sob este calendário, mas jamais deveria valer para quem não nasceu sob ele. Se analisarmos o lado maia, isto trata-se de uma falácia das grandes, e nem dizer que isto serve para lembrar Pakal ainda nos dias de hoje ameniza as necessárias críticas: isto é, sim, uma releitura extremamente eurocêntrica e anacrônica, pelas razões aqui expostas. Espero voltar a este tema num momento mais propício para expor esse tipo de equívoco por parte de pesquisadores e jornalistas.

Não sabemos com certeza se Pakal nasceu num dia equivalente a 23 de março, nem se o tal ciclo maia terminou em 21 de dezembro… E mesmo se isto fosse uma certeza, deveríamos operar a partir do calendário maia e não a partir do calendário gregoriano. Isto significa que os outros dias 23 de março e 21 de dezembro não têm necessariamente QUALQUER ligação com os ciclos maias que um dia possam ter coincidido com tais datas do calendário gregoriano. O calendário gregoriano não pode suplantar o calendário maia nestes termos, especialmente quando estudamos a antiguidade. Quando pesquisadores preferem minimizar este problema, eles estão de alguma maneira reproduzindo o velho colonialismo supostamente pelo bem comum, aquele que só serviu para confundir os sistemas calendáricos da antiguidade e adequá-los ao calendário europeu, tornando fixas as relações entre calendário maia e calendário gregoriano para alguns grupos. Se isto vale, em alguns contextos, a partir do período colonial, e graças à imposição do calendário europeu (criando novas tradições calendáricas), para a antiguidade de Pakal não pode valer de forma alguma esse tipo de “analogia” fixa entre datas maias e europeias.

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out 13 2012

Por uma antropologia maianista (e indigenista) ao lado dos povos maias e mesoamericanos

Este post marca o início de uma empreitada de preocupação antropológica e indigenista mais efetiva neste espaço virtual, sempre em busca de desfazer nós que prendem o entendimento.

Um salve pra todos os amigos nesse dia 13 B’atz (13-Macaco) do calendário ritual maia, equivalente a 13/10/2012 e que representa o fio de ideias que há de nos (re)unir e desatar os velhos nós da (in)diferença e dos conflitos egoístas.

Como alguns dos leitores sabem, minhas pesquisas vão tanto pro lado arqueológico quanto antropológico/etnológico mesoamericano, especialmente maia, já há alguns anos. Combati nos últimos anos as correntes new age no Brasil, que representam uma mercantilização e uma deturpação do patrimônio cultural maia em favor de ideologias políticas e religiosas, como é o caso do Dreamspell (Sincronário da Paz no Brasil). Hoje, dentro da academia, me posiciono politicamente dentro da área de antropologia, rompendo com a tradição colonialista, de centro-direita desta disciplina ainda hoje marcadamente eurocêntrica chamada antropologia.

Por conta dos problemas que enfrentamos no mundo de hoje, deixo pra vocês uma semente pra quem quiser refletir um pouco acerca da história social da Guatemala e da forte e combativa inserção indígena, nesse caso guatemalteco essencialmente Maia (22 etnias), além de Xinka e Garífuna.

Recentemente, aliás, os Garífunas sofrem com uma tentativa de golpe: o Estado de Honduras quer literalmente privatizar três cidades, impactando o direito à autonomia Garífuna! Sobre isso:
http://www.guardian.co.uk/world/2012/sep/06/honduras-new-city-laws-investors

A questão que motivou o breve texto, contudo, é mesmo Guatemala, pois é onde podemos entender melhor o fragmentado e diverso movimento maia, que sobreviveu culturalmente de maneira mais efetiva lá. Abaixo faço alguns comentários que ajudam um pouco a complementar a entrevista que está no seguinte link: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=62887

Especialmente o século passado marcou uma série de massacres aos maias por parte do Estado guatemalteco e do capital, assim como ocorreu com as diferentes formas de resistência em tantos outros lugares na América Latina (incluindo o Brasil).

A famigerada Monsanto, por exemplo, comete o crime ecológico e cultural de (im)plantar milho transgênico lá. Milho moído e água são, na cosmovisão maia (vide Popol Wuj), os ingredientes com os quais os primeiros corpos humanos foram moldados em sua origem. Simbolicamente, num sentido de valor ritual, milho transgênico pode ser encarado também como uma espécie de “clonagem humana”, o que até hoje é imenso tabu no mundo globalizado. Mas quase ninguém gosta de falar disso no mundo, e no Brasil os petistas que querem se pintar de esquerda dizem que precisamos combater a Monsanto enquanto entregam esse “combate” à ideia gradual de “processo histórico”, que no fundo depende da mobilização da base para pressionar cada vez mais em meio à alienação do capital.

Para além disso, e aqui voltando à Guatemala, existe a “burguesia indígena” que, constituindo uma suposta “elite” indígena de influência eurocêntrica, acaba por ser ideologicamente cooptada tanto pela onda new age quanto pelo capital que chega de mãos dadas com o desejo de apropriação do patrimônio maia por parte do Estado com os óbvios fins mercantis e turísticos da pior espécie. Não por acaso o que mundo tem é uma série de informações desencontradas sobre o que é maia (a começar pela gafe mais repetida, a “pedra do sol” mexica descrita como ”calendário maia”), e ocorrem muitas misturas ideológicas que deturpam a identidade maia em nome de inserção política e econômica da burguesia e do Estado com suas identidades nacionais fabricadas que são estabelecidas como “maia” junto à diplomacia e as relações internacionais que abrem o caminho para a manipulação da mídia vendida ao redor do globo reproduzir os clichês.

Esta situação política entre Estado da Guatemala e movimento maia chegou – pasmem – ao conferimento de um “título” ao ex-presidente da Guatemala (Alvaro Colom), oficialmente uma espécie de “reconhecimento ancestral maia” ao governante do Estado opressor. Esta “benção” foi dada por uma liderança, o “maia” mais próximo ao governo da Guatemala, o que gera muita polêmica até hoje. A entrevista no Rebelion.ORG dessa época. O logotipo do governo federal levava sempre o nome de Alvaro Colom nas publicações do calendário maia que o governo ajudava a financiar e que não necessariamente foram sempre referências confiáveis. Há um destaque maior tanto no caso de continuidade cultural dos calendários quanto de influência política por parte de duas etnias maias, a K’iche’ e a Kaqchikel, que ocuparam mais os espaços urbanos e se instituíram mais; por isso alguns indivíduos dessas etnias tiveram maior capacidade para construir a burguesia indígena em torno do capital, vendendo consultas maias a qualquer turista que aparecer. Há uma tentativa de imposição de determinados usos e rituais do calendário que são de uma ou poucas etnias para que seja “MAIA” num sentido de unidade étnica que nunca existiu na história maia, desde a antiguidade. Conseguiram implantar em outras etnias seu desejo de unificação da identidade maia, que perigosamente se aproxima do Estado e pode desmobilizar ainda mais a resistência maia.

O ciclo de 2012 é uma teoria, e portanto sua tomada enquanto “fato” é uma falácia que essa burguesia e o Estado compraram de acadêmicos e conseguiram embutir na base do movimento indígena e indigenista pois, entre o proletariado e os campesinos, há algumas décadas o sentimento de “renascença maia” existe e é forte. Isto rompe com o sincretismo católico que vigora desde a invasão espanhola e passa pela época da ditadura militar e da guerra civil onde a maioria dos mortos foi maia. Por outro lado, essa resistência cultural da base é sufocada. Não é fim do mundo, nem do calendário maia, apenas de um ciclo que foi resgatado por um grupo de acadêmicos (e existem grupos de influência new age também) e, por essa razão, não é uma contagem (como dizemos, correlação de calendários) unânime – existem dezenas de teorias acadêmicas diferentes para marcar o ciclo de “2012″ quatrocentos anos pra trás ou pra frente.

Estamos diante de um ciclo que é escolha e imposição política. E da invenção de novas tradições por parte de uma religião institucionalizada e apoiada pelo Estado, que tenta tornar homogêneas as cerimônias das diversas etnias maias. Isto é oposto ao caminho livre do que chamam de espiritualidade maia (que não é definida por eles como religião) que se afasta do catolicismo e ajuda a manter vários rituais e seus idiomas, preservando as tantas ricas categorias do pensamento ritual e político nativo.

Há poucos dias as forças repressivas da Guatemala mataram seis maias numa grande manifestação… Acho que cientistas sociais combativos do Brasil gostariam de saber desses informes pela autonomia indígena pra ver se passamos a discutir um pouco disso por aqui também, a situação indígena no Brasil e na América Latina!

Estas são apenas algumas das graves questões que não costumam chegar até nós e que são imprescindíveis para entender os próprios maias (e muitos outros indígenas) nos dias de hoje. Como tenho feito campo lá, essas são denúncias importantes até para apresentar o campo e “fatos” e “problemas” dos maias nos dias de hoje ao maior número de pessoas.

Espero que vocês possam levar esse debate mais adiante pra galera interessada, repassando essa mensagem.
Voltando ao calendário maia, me despeço deixando lembranças a todos nesse dia Oxlajuj B’atz (13-Macacos/13-Fios) do ciclo ritual, o fio de ideias que há de nos (re)unir e desatar os velhos nós da (in)diferença, dos conflitos egoístas e das hierarquias de poder forjadas (desde o âmbito familiar até os Estados opressores) para que possamos aproveitar bem a trezena do novo Caminho, que começa amanhã, em nome de uma construção autônoma, consciente e coletiva, cujas ideias estão sempre numa relação de democracia direta efetiva, em debates que não buscam enredar os fios em nós que apenas prendem. Os nós se embolaram da política internacional aos menores municípios, não precisamos embolá-los nas nossas vidas. Dia para os livres pensadores, artistas da produção, resistência racional que não se impõe aos macacos e à natureza como quer o capital; ao contrário, os macacos são símbolos da origem da cultura, como vemos no Popol Wuj com Jun B’atz e Jun Chuwen (ambos 1-Macaco), mas estes acabaram se enredando junto a seus irmãos mais novos e, por isso, perdendo seus lugares sociais na cultura humana.
Abraços,
Thiago Cavalcanti
tcavalcanti@id.uff.br

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nov 02 2011

Declaran patrimonio cultural el Umi’al Tinamit re Xelajuj No’j

Fuente: Prensa Libre

El Ministerio de Cultura y Deporte declaró patrimonio cultural intangible el evento Umi’al Tinamit re Xelajuj No’j se celebra anualmente en la ciudad de Quetzaltenango.

FABIOLA MARIBEL Escobar Ajpacajá fue electa Umial Tinimit Re’Xelajuj Noj —reina indígena—, el 13 de agosto recién pasado.

CIUDAD DE GUATEMALA – La resolución de Cultura se basa en dictámenes técnicos que determinaron que es procedente otorgar esa categoría al evento, el de tipo indígena más importante de la segunda ciudad más importante de la República.

“Se declara Patrimonio Cultural al evento Umi’al Tinamit re Xelajuj No’j por su importante aporte a la promoción y conservación del patrimonio cultural intangible de Guatemala, a través de las actividades que desarrolla, que revela expresiones culturales, históricsa, linguisticas, espirituales y cosmogónicas de los pueblos”, manifiesta el acuerdo 1044-2011, publicado este lunes en el oficial Diario de Centroamérica.

La resolución establece que la declaratoria no representa ninguna responsabilidad financiera del Estado para el evento.

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out 31 2011

Arqueólogos quieren recapitular historia latinoamericana con visión propia

Fuente: Prensa Libre

Arqueólogos de varios rincones del mundo se congregarán en Ecuador la próxima semana para intentar recapitular la historia originaria de América Latina sobre la base de una cosmovisión propia, diferente de los parámetros de Occidente.

En Ecuador se realizará un encuentro de historiadores

EFE

Quito

Así lo aseguró a Efe Tatiana Hidrovo, organizadora del encuentro cientÍfico que reunirá entre el 26 y 28 de octubre a arqueólogos de “altísimo nivel” provenientes de Argentina, México, Venezuela, Estados Unidos, Rusia, Reino Unido y Ecuador.

Se busca, dijo Hidrovo, “crear una epistemologÍa del Sur; conceptos propios para interpretar los procesos propios sin la necesidad de tomar prestados los conceptos occidentales” que han dominado las ciencias hasta ahora.

El encuentro tendrá lugar en Ciudad Alfaro, un moderno conjunto arquitectónico edificado en las faldas del cerro de Montecristi, en la provincia costera de ManabÍ, que entre 2007 y 2008 albergó a la Asamblea Constituyente que elaboró la actual Carta Magna ecuatoriana.

Además, en esa zona se desarrolla uno de los proyectos arqueológicos más importantes del paÍs, denominado “Cerro de Hojas-Jaboncillo”, considerado por los expertos un “paradigma” para reinterpretar la historia precolombina.

El encuentro en este sitio es emblemático y busca “crear un nuevo espacio para que las ciencias arqueológicas de América y del mundo comiencen nuevamente a promover la discusión de sus últimos resultados, pero con una perspectiva más holÍstica”, apuntó Hidrovo.

Para ella, la ciencia tradicional “ha manejado un concepto de rescate de objetos arqueológicos bajo principios de estética, con miras a engrosar exposiciones museográficas”, pero que no ha profundizado en los contextos histórico, social o polÍtico de los hallazgos.

En el simposio se debatirá sobre “una arqueologÍa no sólo para llenar museos sino para explicarnos el presente” , apostilló Hidrovo, que dirige el complejo “Ciudad Alfaro” , que pertenece al Consejo Sectorial de Patrimonio del Gobierno ecuatoriano.

Asimismo, dijo que en el encuentro se busca investigar la arqueologÍa en torno al eje del océano PacÍfico, que rompe el paradigma del Atlántico, el cual ha predominado en la investigación e interpretación histórica desde hace más de 500 años.

Por su parte, Jorge Marcos, que dirige el proyecto arqueológico “Cerro de Hojas-Jaboncillo” , indicó que la investigación realizada en este sector será una especie de “plato fuerte” del simposio.

Se trata, dijo, de un “yacimiento de 3.500 hectáreas” que revela una “complejidad arqueológica bastante importante” , que “cambia el esquema de toda la arqueologÍa de América Latina” y que posee “una importancia global” .

El hallazgo corresponde a una ciudad que se presume era “el centro de todo un sistema productivo en los cerros” circundantes, con silos para el almacenamiento de la producción excedentaria y espacios para viviendas.

El yacimiento es el más grande de América, según Marcos, porque es un sistema que se extiende entre la ciudad portuaria de Guayaquil, en el suroeste, hasta la de Esmeraldas, en el noroeste.

“Estamos ante la presencia de un Estado prehispánico donde antes se creÍa que sólo existÍan grupos de poca importancia política” , señaló Marcos, quien fue mas allá al precisar que esta organización, posiblemente, era parte de un gran sistema social que iba desde el golfo de California hasta el interior de Argentina.

Por eso, este hallazgo podrÍa “cambiar la concepción de la historia sobre América Latina”, enfatizó el arqueólogo ecuatoriano.

En el simposio en “Ciudad Alfaro” participarán, entre otros, los cientÍficos venezolanos Mario Sanoja e Iraida Vargas; los argentinos Gustavo Politis y Cristian Favier; el mexicano Luis Felipe Bate y el portorriqueño José Ortiz Aguilú.

También los estadounidenses Eduard Kurjak y Anthony Ranere; el inglés Richard Lunnis y el ruso Andrei Tabarev.

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